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Category Archives: História

Há dois dias falava com um amigo ainda sobre “bloggar ou não, heis a questão” e ele mostrou-se preocupado relativamente à apropriação de ideias a que um blogger está sujeito. Nunca tinha pensado nisso mas, efectivamente, é perfeitamente possível que qualquer pessoa plagie um qualquer poema, desenho ou pensamento de um blogger incauto. Penso estar imune a tal situação pois além de não serem objectos de leitura o conteúdo dos meus posts não é um atractivo per se.

De qualquer forma foi no seguimento da reflexão anterior que me lembrei de dois casos que embora não sejam exemplos de plágio propriamente dito, são seguramente icónicos no que toca a aproveitamento e manipulação de ideias. Falo-vos de Richard Wagner e Friedrich Nietzsche e da manipulação das suas idealogias e obras de arte por parte do regime Nazi.

Não é nem era segredo que Wagner era anti-semita. Sabia-se então (Wagner era, aliás, uma figura bastante mediática no seu tempo) e continua-se a saber agora, no entanto tenho-me apercebido recentemente que a ideologia anti-semita borbulhava no seio da cultura alemã do séc. XIX e Wagner era apenas mais um. Poderei estar errado, mas nas minhas últimas aventuras literárias cheguei à conclusão que nesta altura em toda a Alemanha existiam focos de rebeldia contra a cultura Judaica. Aliás, espanta-me que tanto tempo tenha passado até rebentar uma guerra sobre isto. Mas não fujamos ao ponto da questão: Wagner foi um brilhante compositor de óperas que mais tarde vieram a ser adoptadas por Adolf Hitler, aparentemente porque os tons épicos destas obras inspiravam todo um sentimento heróico no povo alemão (e também porque Hitler simpatizava com as ideias de Wagner); era o orgulho nacional em forma de música. Hitler assistia então repetidamente às óperas de Wagner e, também repetidamente, estas eram ouvidas pelos prisioneiros nos campos de concentração (esta mistura cruel de opressão e música clássica – que são a meu ver antitéticos – ainda hoje me choca). Um século depois da morte de Wagner, sem este sequer ter tido conhecimento do Holocausto, ainda há locais (maioritariamente em Israel) que não permitem que a sua música seja tocada; e quem ousa censurar tal resolução? Infelizmente esta é uma consequência da associação de obras de arte a movimentos anti-raciais.

Da mesma forma os pensamentos de F. Nietzsche foram utilizados pelo regime Nazi como uma quase-justificação dos seus actos hediondos. Este filósofo alemão, que em vida foi amigo de Wagner, é talvez o autor mais discriminado devido à sua associação com o Nazismo. Ao estalar a Segunda Guerra Mundial a propaganda Nazi utilizou discriminadamente os trabalhos de Nietzsche; discriminadamente, pois só partes da sua filosofia eram úteis à máquina de guerra e, consequentemente, o resto era omitido. As ideias do Super-Humano de Nietzsche eram o pilar ideal para assentar o Ariano Perfeito; a sua crença de que a sede de poder é algo natural e tudo é conquistado através de conflito era o pretexto perfeito para começar uma guerra. Nietzsche parece, sem dúvida, extremamente agressivo, porém nunca apoiou as ideias pró-nacionalistas e foi por isso que cortou relações com Wagner. No entanto, um século depois, ainda há reservas quando se fala de Nietzsche e muita o vê como um filósofo mau (diferente de mau filósofo).

Dois homens brilhantes, obviamente com os seus defeitos, mas ignorantes quanto ao movimento Nazi, foram portanto os gigantes perfeitos para carregar nos seus ombros todo um regime de opressão e violência. Neste momento não me parece que nenhum dos dois cavalheiros esteja preocupado com a sua reputação, no entanto a verdade é que para nós, que bebemos da sua sabedoria, ainda há reservas a fazer (taboo?), fruto de um trabalho miserável dos quais eles foram co-autores forçados.

“Todas as coisas estão sujeitas a uma interpretação – a interpretação que prevalece num determinado momento não é em função da verdade mas sim do poder.”

- F. Nietzsche

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