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Todos nós conhecemos a expressão “meninos ricos” e “menino dos papás”, usada regularmente como rótulo para alguém que não precisa de se esforçar para subsistir ou obter bens materiais. Muitas vezes nos apanhamos a dizer que indivíduo tal é um menino rico do papá (2 em 1) porque o seu primeiro carro é um alemão vigoroso ou foi-lhe dado um apartamento de luxo, ou simplesmente porque não vamos com a cara do sujeito. Falo nisto porque recentemente (nos últimos meses) tenho pensado que nós, jovens universitários portugueses, somos todos meninos ricos.

Eu explico: na Páscoa última viajei com uns amigos até à Bélgica e Holanda, onde não só visitámos os clichés de Bruxelas e Amesterdão como também testemunhámos uma pequena fracção do quotidiano daqueles povos. Enfim, aquelas trocas culturais que inevitavelmente ocorrem cada vez que saímos do nosso pequeno rectângulo. Na Holanda passámos uma noite em casa de um amigo que viveu até aos 17 anos em Portugal, estando já há 6 no país laranja. Esse mesmo amigo esteve nesta última semana a passar férias cá em Portugal, hospedado em minha casa, e foi depois de uma semana de longas conversas com ele que me decidi a escrever estas linhas. Como não poderia deixar de ser os temas dominantes das conversas entre dois jovens interessados no estado do seu país e na própria educação foram a política interna, sociedade, cultura, ciência e tecnologia. Ora, foi nestas conversas que descobri, para minha enorme surpresa, que a esmagadora maioria dos estudantes universitários holandeses emancipam-se por volta dos 19 anos, onde “emancipam-se” tem o valor de “saem de casa dos pais e começam a trabalhar enquanto fazem um curso superior”. Esta situação é tão comum que o meu amigo holandês já não entendia o conceito sócio-cultural de “estudos universitários sustentados pelos pais”! Neste momento ele está a fazer o curso de Marketing & International Management na Saxion University of Applied Sciences, a trabalhar em part-time, e tem um rendimento mensal SUPERIOR a um recém-licenciado em Portugal – estamos a falar de mais de 3 ordenados mínimos portugueses num part-time. Esta situação é comum por lá e virtualmente nenhum jovem universitário é sustentado pelos seus pais. Perante este panorama e em termos comparativos não seremos nós, jovens portugueses, uns meninos ricos dos papás?

Antes de dispararem as baterias que já me estão apontadas desde o início do texto deixem-me clarificar que eu estou incluído no saco dos meninos ricos e que sei porque é que assim é – tal como vocês. Em Portugal é praticamente impossível encontrar um part-time que seja compatível com a nossa carga horária, os professores não entendem o conceito de estudante-trabalhador e os empregadores não conhecem o conceito de trabalhador-estudante; em suma, é impossível conjugar estudos com trabalho. Podia ainda argumentar que ainda mais difícil é encontrar um trabalho que nos valorize dentro da nossa área de estudos e muito menos um emprego cujo ordenado nos permita pagar a nossa renda mensal. Todos nós conhecemos pelo menos uma pessoa que está a trabalhar em paralelo com os estudos e todos nós temos que reconhecer que essa pessoa é sempre olhada de maneira diferente de um estudante full-time. Normalmente têm um rendimento escolar inferior e os professores tendem a vê-los como os que se arrastam pelo curso, exigindo dedicação total para se ter sucesso na sua disciplina. Em vez de serem valorizados são reprimidos. A palavra “discriminação” ocorre-me…

Pronto, estou a ser estremista. Obviamente existem excepções. No entanto, perante este panorama, não seremos todos uns meninos ricos por imposição socio-política? E a uma escala maior, não serão os países de meninos ricos também por isso menos competitivos que os outros, tais como Holanda, Reino Unido e Dinamarca? Parece-me que é um mal de raíz e se calhar vale a pena considerar isto…

“Dá um peixe a um mendigo e alimenta-lo-ás por um dia;

ensina-o a pescar e alimenta-lo-ás toda a vida”

- provérbio chinês

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2 Comments

  1. Muito bem, meu caro, gostei desse seu texto Meninos Ricos. De facto, nos países ditos mais evoluidos, ser universitário significa andar a preparar-se para a vida. E a vida exige mais que a sabedoria de todos os livros e todos os sites da Internet todos juntos! Exige que se ganhe prática… da vida… profissional, claro, mas de tudo o resto! Por isso, a nossa paranóia portuguesa de dar 12 (enfim talvez só 11) meses de aulas por ano é ridícula. Sou dos que defendem menos aulas e mais férias! Mas que não são para passar inteiramente na praia ou na discoteca. São também para aprender a trabalhar, num emprego temporário ou a tempo parcial, mesmo que não seja relacionado com o curso que se está a tirar.

    Saber interagir com todos os níveis de uma hierarquia (um chefe, colegas, subordinados), ser pago pelo trabalho feito (sem ser a mesada do papá), ter responsabilidades (sem ser o mini-teste ou mesmo o exame final), enfim tudo isso só pode aprender-se fora da sala de aula e quanto mais cedo, melhor. E isso é uma mais-valia num CV.

    Essa experiência é normalmente vivida pela esmagadora maioria dos estudantes americanos e alemães que eu conheci enquanto trabalhei em universidades desses países. Faz falta aos estudantes portugueses.

  2. Cada um fala por si, mas eu sou estudante-trabalhadora, estudo na faculdade agora garanto que é bem duro. O dinheiro tem de dar para a escola,pra comida e para ajudar os pais, porque eu sou daquela geração de filhos cujos pais tem pouca instrução escolar, e vindos do interior, e para quem era natural terem mais do que um filho, desde que houvesse comida e assistência médica. Um erro, melhor tinha sido se só tivessem o meu irmão e não eu. Mas agora ja cá estou…nao houve dinheiro para mais nada,nunca tive uma conta e aos 19 as dificuldades eram muitas e tive de ir trabalhar. Só agora foi possivel ir estudar, mas a verdade é que os professores olham de lado por vezes e os chefes torcem o nariz. Sim o estatuto felizmente existe, mas os profs e chefes, como tiveram o apoio dos pais que os sustentaram nunca precisaram de trabalhar e estudar, senão compreenderiam. Como tiveram uma bela vida facil, jamais entenderão o que custa dividir-se em dois pra tentar ter a vida que os pais não nos deram… Ainda assim, faço horas para compensar as que não estou no serviço, e acreditem faço as horas todas.Ainda NUNCA falhei em nada no meu trabalho por estudar, nem que isso signifique estar lá as mesmas horas que estive nesse dia na Universidade!!! mas é uma vida muito triste e dura, por vezes como uma sandes a correr e mal dá pra mais. Para muitos chefes, o estatuto?se eles pudessem acabavam com isso, felizmente para nós, eles são chefes, mas não ditadores do país. sento-me ao lado de colegas (nas aulas que consigo ir) com o ar fresco de quem nunca trabalhou. Têm menos dez anos que eu e nunca provaram o sabor amargo de um despedimento por terminar o tempo máximo de contratos e nao passarem aos quadros e de ter os sonhos e projectos adiados porque nao ter condições. Assim, compreendo muito bem quem estuda e trabalha, deviamos estar em maior consideração porque sacrificamos tanto, até da nossa vida pessoal, para poder ter alguma coisa num futuro demasiado incerto. O estatuto existe, mas sinto que estamos de certa forma, abandonados…


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